sexta-feira, 18 de julho de 2008

Medellín – Rio

Para brasileiros – e sobretudo para os interessados no Rio, ou no que acontece por lá – me parece que ler coisas sobre Bogotá e sobre Medellín é essencial. São problemas irmãos. Gêmeos. A notícia do crime de hoje no Rio é de ação da PM na favela Minha Deusa, na zona oeste do Rio, na qual foram mortas seis (seis) pessoas – segundo a Agência Brasil – ou oito (oito) – segundo o Uol. Não fiz a conta, mas a cada semana tem uma notícia nova no Rio. A notícia é uma, mas os mortos são sempre muitos: seis na Providência, oito no Realengo. Minha incapacidade de acompanhar tudo isso impede uma lista exata. Mas a imagem é recorrente: vejo os meninos que contam suas histórias, ora aliadas, ora rivais, em dois morros de Medellín (vou achar o nome do documentário). Contam suas histórias de vidas que se entregaram ao tráfico, sua falta de perspectiva, a espera da morte. É a mesma situação. Claro, os países são diferentes, aqui não tem guerrilha das Farc nem paramilitares.

Importam menos as circunstâncias e mais a vida das pessoas. Não tem dúvida de que os meninos e as meninas da Favela Minha Deusa, do Morro Santa Marta, da Rocinha ou de qualquer morro do Rio passam por coisas parecidas com os dos morros de Medellín. Gravidez precoce, encantamento com o dinheiro do tráfico, status, ferimentos, a forma de ver a vida e a morte. E, afinal, são as vidas das pessoas que fazem os países. Mas nós continuamos aqui, fingindo que a situação no Rio é pontual, que isso é superável, que se resolve algum dia.

Dois novos pra ler um dia: do Chile e da Colômbia

Passei na Livraria Cultura hoje e vi dois livros interessantes. Podem ser novos só pra mim, vá lá, mas ainda assim deram vontade de voltar a escrever. O Fantasista, do chileno Hernán Rivera Letelier que, dizem o Google e a orelha do livro, é um dos mais lidos no país. O tema? Futebol como metáfora do universo, quem diria. Fiquei com vontade de ler. O outro é da colombiana Laura Restrepo, chama Delírio e fala da Colômbia, das maluquices em que as pessoas entram por lá - assunto pro post seguinte.
Ambos nasceram em 1950.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Peru - primeiras imagens

A história dos cachorros pendurados pelos Sendero Luminoso está presente no Abril Vermelho (Santiago Roncagliolo, Alfaguara) e no Radio Cidade Perdida. Com as imagens que se repetem nos livros, começo a formar uma idéia sobre um país do qual não sei nada além de Machu Pichu, do nome da capital, da existência do Sendero Luminoso e das idas e vindas do Fujimori – e tomara que não tenha nenhum erro de geografia nesse caminho curto. Os livros me contam histórias de depois da guerrilha e do governo Fujimori, mas em todas as linhas se referem a isso. O bairro de Lima que cresceu com a saída das pessoas do campo, os apagões na cidade, os cachorros pendurados com dizeres de “Assim morrem os traidores”. Pesquisa rápida no Google me faz entender que foram pendurados em quatro povoados diferentes. O quanto essas histórias marcam a vida do país até hoje? De que forma? Será na proporção do Menem pra Argentina, ou da ditadura militar de lá, ou será como a ditadura daqui que, me parece, está viva apenas na memória das pessoas da esquerda que passaram por ela batendo de frente?

Um dos trechos que me chamou atenção no Abril Vermelho fala disso. É uma conversa entre o personagem principal, o promotor distrital adjunto Félix Chacaltana, e Edith, sua amiga garçonete que ele mal conhece.

- Como foi que seus pais faleceram?
- Pelos terroristas – respondeu ela.
- Foi uma época horrível, não?
- Não quero falar disso.
Ninguém queria falar. Nem os militares, nem os policiais, nem os civis. Tinham sepultado a lembrança da guerra junto com os seus mortos. O promotor pensou que a memória dos anos 1980 era como a terra silenciosa dos cemitérios. A única coisa que todos compartilha, a única de que ninguém fala.

Ou este, na beira de um grande buraco de corpos e ossos
(não quero transcrever a parte anterior, é pesada e forte) ... a mente perdida em algum momento do tempo, quando tudo era ainda mais perigoso, perguntando-se quanto demoraria este tempo para se esgotar, quantos anos a memória ainda levaria para desaparecer, a dor para se extinguir, as feridas para cicatrizarem, os olhos para se fecharem


No Abril Vermelho, a questão dos índios está presente o tempo todo e muito claramente. È no interior do país, e lá se fala Quíchua entre os camponeses e espanhol entre as autoridades, pelo que conta o livro.

Não sei o quanto é bom ficar transcrevendo partes dos livros, mas vão uns pedaços que mostram bem como o autor (a história) falam da distância entre o mundo que fala a língua do dominador, o mundo de Lima e o do interior do país (contraste que é ainda mais central no Radio Cidade Perdida).

Em conversa entre o padre e o promotor distrital adjunto Félix Chacaltana, o padre pergunta
... Já viu alguma vez as igrejas de Juni, em Puno?
Chacaltana responde que não.
A resposta do padre
- São igrejas ao ar livre, como currais. Os jesuítas construíram no período da colônia para converter aos índios, para que eles assistissem à missa, porque só adoravam o sol, o rio, as montanhas. Compreende? Não entendiam porque o culto se realizava em lugar fechado.
-E adiantou?
Oh, sim, para manter as aparências. Os índios assistiam à missa encantados e em massa... Rezavam e aprendiam cânticos, até comungavam. Mas nunca deixaram de adorar o sol o rios , as montanhas. Suas rezas em latim eram só repetições decoradas. Por dentro, continuavam adorando seus deuses e seus jazigos, as guacas. Enganaram os jesuítas.


outro trecho
Não, as festividades se superpõem. O carnaval é originalmente uma celebração pagã, a festa da colheita. E na Semana Santa também há ecos da cultura andina anterior aos espanhóis. (...) Como lhe disse outra vez, os índios são insondáveis. Por fora, cumprem os ritos que a religião lhes exige. Por dentro, só Deus sabe o que pensam.

Mais no final do livro, ele vai além e traz Tupac Amaru enterrado em pontos diferentes do império “para que seu corpo nunca voltasse a se unir. Mas, segundo eles, essas partes estão crescendo até se juntar. E, quando encontrarem a cabeça, o inca se levantará de novo e o ciclo se fechará”.

Puno, Juni, Tupac Amaru, a imagem dos camponeses andinos e até mesmo de Cuzco quase não existem na minha cabeça. A comparação pode ser rasa, mas em um outro livro, europeu, quando aparecem coisas sobre Praga, Varsóvia, Rússia, Nietzsche – pra não falar nas cidades mais óbvias e pra ser fiel ao outro livro – a impressão que eu tenho é que trago mais referencias sobre elas do que as histórias daqui de perto. È um comentário comum, mas é muito forte perceber como vão se tornando familiares lugares que são parte dos filmes que vemos, dos livros que lemos. E, ao contrário, como a ausência deles nos impede de construir imagens, expectativas, de ter vontade de visitar, de saber como vivem as pessoas por lá.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Os panetones. E as luzes.

É isso mesmo, Pa – ne –to- ne. E vinho. E amigos com alguma coisa bonita pra comemorar. Mas as luzes, são as luzes o mais legal. Tem uma coisa que eu inevitavelmente gosto nessa época de Natal, além do panetone, que é o encanto de ver umas árvores iluminadas anunciando, do nada, que tem alguma coisa sendo aguardada. Elas ficam mas bonitas ainda neste ano que foi o ano de entender os rituais. Acho que a partir deles eu consegui dar uma ordem ao mundo, entender um tanto mais sobre como o ser humano se organiza e sobrevive – consegui achar que é o ser humano mesmo, todo mundo, que se organiza assim, ainda que as formas finais sejam diferentes. Logo eu, que pulei todos – quase todos, tem uns que não passaram ainda. Uns burrinhos nós que achamos que somos tão diferentes, modernos. Somos nada, e só olhando os outros dá pra entender como funcionamos. Bom, mas isso tudo pelo prazer de olhar pra um canto e ver uma indicação de natal, de festa, de aguardo, de passagem, de olhar pra trás pra planejar, cinco dias depois, o que pode vir à frente.
Tô num dia daqueles de buraco, aquele que começa no estômago, que traz aquela fome de alguma coisa que não dá pra identificar o quê Vou almoçar pra ver se resolve, mas meu palpite é que não.
Pode ser a chuva lá fora.
Ou vontade de comer panetone. Não comi nenhum esse ano ainda.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Mr Tambourine Man


Ainda bem que o rock and roll existe. E o cinema. E que de tempos em tempos os dois se encontram pra lembrar a gente de que a vida é incrível quando tudo tinha ficado meio igual, meio cinza, meio com cara de papel almaço usado pra rascunho.

I´m not there é o nome do filme, e o rock and roll é aquela música feita pelo Bob Dylan, com aquela voz esquisita conversando com a gaita e com o bom e velho violão. Tudo isso lá pra me contar que a dor da vida é essa que a gente tem, que os músicos conseguem mostrar mas que todo mundo vive (é?), que de repente até dá pra usar essa mesma dor chata pra se reinventar quando o molde já não cabe mais.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Cinema brasileiro de linha argentina e diretor chileno

Volto ao tema da guerra do post anterior, ainda que ainda esteja buscando um assunto pra falar de amor. “Tá tudo podre, a gente finge que é cego pra não ver”, diz León, protagonista de “Proibido proibir”, filme brasileiro de diretor chileno radicado por aqui que estreou em 2007. O filme, acho eu, passa de um jeito singelo, sem deixar de ser duro, por temas presentes em várias das produções nacionais mais polêmicas dos últimos tempos: classe média, boa vida e drogas, o encontro da zona sul carioca com o morro e a vida real, violência, morte, ação da polícia.

Até onde vi, não foi filme de grande repercussão, apesar de tratar dos mesmos temas que outros alardeados, como o Tropa de Elite. Tá, o tamanho das produções é diferente, mas o tema é sim parecido e este aqui me pareceu bem mais filminho da linha latino-americanos recentes, sem pretensão a blockbuster, menos ambiciosos mas tratando bem temas da vida urbana cotidiana. Me lembrou muito dos argentinos dos últimos anos, daqueles que dá gosto de ver e que tratam de temas políticos sim, sem que a política e a vida real estejam separadas.

Fui tentar conferir se a pouca repercussão do filme era desinformação minha. Descobri que o filme, feito com feito com R$ 1,1 milhão (baixo orçamento), foi bem em festivais desde 2005 (os links tão logo abaixo), passou um tempo sem distribuidor e estreou em uma sala em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Brasília no meio de 2007. Proibido proibir inscreveu-se pra indicação brasileira pra concorrer ao Oscar e não ganhou atenção maior dos jurados, me dá vontade de saber por que.

Um triângulo amoroso (lembrou o também recente Cidade Baixa) e perda da inocência aparecem também, levados por personagens bem construídos o suficiente para não cair na armadilha de esquematizar o mundo em questões de gente engajada/não engajada, paulista/carioca, branco/negro, vasco/flamengo. Estão lá, mas não viraram lugares comuns a ponto de incomodar. O diretor foi roteirista de “Lúcio Flávio - Passageiro da Agonia", "Pixote - A Lei do Mais Forte".

A cena do cemitério, no meio de outras, me lembrou cena do “Rosário Tijeras”colombiano sobre mulher chefona do submundo de Medellín, também filme sobre a vida contemporânea, o envolvimento entre o mundo e o submundo. Acho que este nunca estreou no Brasil, passou por aqui em festivais. O filme é baseado no livro de Jorge Franco Ramos, colombiano.

"Proibido Proibir" vence Festival de Cinema de Bogotá, (EFE, 12/10/2007)
Filme de Jorge Duran vence prêmio no Festival de San Sebastián (EFE 22/09/2005)
Brasileiro "Proibido proibir" ganha prêmio no festival de cinema de Biarritz (Folha, 02/10/2006)
Filmes brasileiros agradam em festivais, mas podem nunca estrear (Folha, 31/10/2006 - 09h31)"Proibido proibir" ganha Festival de Viña del Mar (Folha, 20/11/2006)